Uma das grandes habilidades cobradas em qualquer meio profissional, na atualidade de um mundo dinâmico, em constante transformação, é a criatividade. Criatividade é um substantivo com relação ao adjetivo criativo, palavras que se originaram do latim creatus (criar) e do verbo no infinitivo creare que indica a capacidade de criar, produzir ou inventar coisas novas. Embora esteja, muitas vezes, relacionada ao meio artístico, criar é uma habilidade que se faz necessária em qualquer atividade humana.

Um dos pontos que observo no processo de criação é o fato que muitas vezes, somos cobrados para criar incessantemente, “pensar fora da caixa” no jargão popular, sem nos darmos conta de que, sob pressão, a criatividade tende entrar em conflito, travando-se às ideias e ao seu próprio criativo.  Vale refletir que criar é um processo que precisa de várias referências para ser colocado em prática: leituras, filmes, passeios, músicas entre outras. Então, criatividade não é um dom divino, algo que nasce com a pessoa, mas sim uma habilidade que pode e precisa ser desenvolvida.

Quando olhamos para a mitologia grega, encontramos as musas, filhas de Zeus que se dedicavam a entreter as celebrações dos deuses. Cada uma das musas tinha um caminho único, uma destreza que as diferenciava umas das outras e em muitos momentos puderam inspirar os homens em seus processos de criação, que muitas vezes recorreram a elas quando se sentiam travados.

Importante, no entanto, frisar que criatividade não é resultado de inspiração divina, mas sim de muito trabalho e dedicação, persistência e foco. Mas como criamos e o que fazemos com nossas ideias? O processo criativo, muitas vezes, tem início em processos caóticos (lembremos que, conforme escrevi na semana passada, do caos surge a oportunidade para a criação) e a partir desta “bagunça” mental podemos encontrar respostas diferentes para questões cotidianas. No entanto, quando começamos a ter ideias, é comum uma vozinha interior nos dizer que não vai dar certo, que é melhor desistir, que é muita ousadia entre tantas outras frases. Costumo me lembrar, nestes momentos, do personagem Grilo Falante, criado pelo italiano Carlo Collodi em seu livro As Aventuras de Pinóquio – História de Um Boneco, escrito em 1883.

O Grilo Falante fazia as vezes da consciência do boneco Pinóquio, alertando-o a não fazer besteiras ou ainda a não se arriscar com aquilo que não lhe faria bem. Em um dos capítulos, Pinóquio fica enfurecido com a interferência do Grilo Falante e lhe atira um pedaço de pau, acertando-o direto na cabeça e com isso matando o pobre, esborrachando-o contra a parede. No decorrer do livro, o Grilo ressurge talvez como uma sombra, um fantasma, e continua a dar conselhos ao boneco. Pois bem, costumo dizer que, em se tratando de processo criativo, precisamos calar o nosso Grilo Falante (não com tanta violência) pois sua função em nossas vidas, é de censurar ideias que muitas vezes ainda nem foram criadas totalmente.

Se olharmos para a obra de Freud, o iminente médico austríaco, um dos grandes revolucionadores da história, temos, na composição de nossa psique três instâncias: o ego, o id e o superego. O Id é um componente inato aos seres humanos, presente desde o nascimento; o Ego surge a partir da interação do ser com o mundo ao seu redor e o Superego se desenvolve a partir do Ego, consistindo na representação de ideais e valores morais e culturais de cada indivíduo. Se lembrarmos de vários desenhos animados, chega-nos à imagem de um anjinho e um diabinho ao redor da cabeça de alguns personagens, aconselhando-os ao que deveriam fazer. O Superego faz às vezes do anjinho, enquanto o Id, do diabinho.  Neste olhar, o Grilo Falante faz às vezes do Superego orientando Pinóquio para aquilo que estaria de acordo com a criação de Gepeto, os valores de seu pai e daquela sociedade. Mas Pinóquio queria conhecer o mundo, descobrir o que estava a sua frente. Viajar com o teatro de bonecos, com a raposa e o gato e não estava disposto a ouvir o Grilo.

Trago aqui esta analogia para propor a reflexão de que, no início de um processo de criação, precisamos calar o Grilo Falante para que os freios que poderiam nos impedir de ter ideias diferentes não sejam acionados. Talvez neste momento, o Id precise falar mais alto, incitando-nos correr riscos, a tentar, ainda que sem a certeza do caminho certo, a agir com ousadia e, para usar bons termos brasileiros, com muito gingado e malemolência. Criar implica em olhar para algo com outra lente, outra forma de entendimento, de um jeito que outros não olharam.  Durante minha pesquisa de doutorado, encontrei muitas pessoas que convertiam o material descartado em oportunidades de criação, em gambiarras, pelo simples fato de verem, naquilo que fora jogado no lixo, a matéria-prima para criarem aquilo que necessitavam.

Então, criar responde a uma necessidade humana, uma forma de atender aquilo que o mundo nos traz como desafio e nestes momentos, o cricrilar do Grilo pode nos afastar de caminhos ousados para criações mirabolantes e funcionais, em um mundo que nos cobra tal habilidade.

Criar exige coragem e é nestes momentos que o Grilo Falante deve ser calado para que, incitados pelas palavras do ID (o diabinho dos desenhos animados) não tenhamos medo de arriscar e buscar novidades onde muitos só encontram a mesmice. Ainda em Pinóquio, mesmo com todas as suas cabeçadas, devemos lembrar que ele conseguiu atingir seu objetivo que era se tornar um menino de verdade.  Ele calou o Grilo Falante no momento certo para que nada o impedisse de buscar o novo, a novidade e a certeza de que poderia criar o seu mundo, da forma como sonhava e com as ideias que teve ao longo de sua jornada. E você? Sabe o momento certo para calar o Grilo Falante quanto ele insiste em atrapalhar o despertar da sua criatividade?

 

Prof. Dr. Robson Santos

Coach e Terapeuta

10 comments

  1. Dulce Eugênia marinho

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    Robson, li o seu texto e me permitiu refletir bastante. Gratidão por compartilhar.

  2. Maria Carolina Carneiro

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    Ro

    Parabéns pelo texto!
    Como sempre, você consegue ser muito assertivo e didático.A analogia foi perfeita.
    Amei!!!

  3. Sandra Caldas Lourenço

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    Amei o texto e a proposição para refletirmos, a partir das analogias que você realiza com as personagens. Bem assertivo, como sempre. Abraços!

  4. Albertina B. Schonevald

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    Oi prof. Robson, aqui é a profa. Tina do Ciranda. Muito bom seu texto reflexivo sobre criatividade. Na minha visão a criatividade é mesmo uma habilidade que exige prática para desenvolvermos e ficarmos melhor a cada dia, e a melhor época para começar a praticar essa habilidade é na infância, porque a criança vive (ou deveria viver) em um mundo encantado, cheio de fantasias e sonhos onde tudo é possível e nas brincadeiras que fazem e nesse mundo onde a imaginação é bem fértil é propício ao ser humano iniciar suas criatividades seja uma história criada inicialmente meio sem pé e sem cabeça, mas que faz a gente rir a bessa, invenção de um brinquedo, brincadeira ou jogo, criar uma palavra, inventar nomes para as coisas ou criar uma canção, toda essa criatividade parece natural e muito divertida no mundo infantil que se for estimulado pelo adulto, ela vai continuar praticando de forma simples como o respirar diário e vai se aperfeiçoando nessa habilidade de ser criativo, mas muitos adultos podem, barram e impedem que a criança desenvolva e surge o Grilo falante e muitos se intimidam com ele e vão crescendo esquecendo-se e até perdendo essa habilidade porque deixaram de praticar muito cedo. Graças a Deus, cresci em um lar e tive professores na infância que estimulavam a criatividade, então não tive problemas e nem me encontrei com o Grilo falante antes de chegar à universidade, lugar que deveriam estimular mais essa habilidade e pelo contrário foi onde a maioria dos professores barraram os nossos pensamentos filosóficos e criações para nos tornarem seres copiadores, robôs sem criatividade que repetem pensamentos, obras e criações dos outros e se na infância não tivesse o estímulo e incentivo que tive, seria difícil espantar e tirar do caminho esse “Grilo Falante”.

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